quarta-feira, março 30, 2011

O espaço urbano na visão de Roberto Lobato Corrêa

O Que é espaço urbano? Em termos gerais, o conjunto de diferentes usos da terra justapostos entre si. Tais usos definem áreas, como: o centro da cidade, local de concentração de atividades comerciais, de serviço
e de gestão; áreas industriais e áreas residenciais, distintas em termos de forma e conteúdo social;
áreas de lazer; e, entre outras, aquelas de reserva para futura expansão. Este conjunto de usos da
terra é a organização espacial da cidade ou simplesmente o espaço urbano.

O espaço urbano se caracteriza como fragmentado e articulado. Ele é reflexo e condicionante social, e ao mesmo tempo é um conjunto de símbolos e campo de lutas. É assim a própria sociedade em uma de suas dimensões,aquela mais aparente, materializada nas formas espaciais.

Referência Bibliográfica:
CORRÊA, Roberto Lobato. O Espaço Urbano. São Paulo: Editora Ática, 1999, p.1-16.

terça-feira, março 29, 2011

Compreendendo o espaço urbano

O espaço urbano deve ser considerado como uma conjunto de relações realizadas através das funções e de formas que se apresentam como testemunha da história escrita por processos do passado e do presente. Isto é, o espaço se define como um conjunto de relações sociais do passado e do presente e por uma estrutura representada por relações sociais que estão acontecendo diante dos nossos olhos e que se manifestam através de processos e funções (SANTOS, M. 1978, P 123).
Milton Santos considera que as categorias analíticas do espaço urbano são: forma, função, processo e estrutura. A forma é o aspecto visível, a função é o meio através do qual as relações sociais se manifestam, o processo relaciona-se ao tempo e à mudança do espaço, e a estrutura é a inter-relação das partes ou a forma como as partes se organizam.
Milton Santos também considera que o espaço é uma estrutura constituída pelos seguintes elementos: o homem; as firmas (produtores de bens, serviços e idéias); as instituições (produtores de normas, ordens e legitimações); suporte ecológico (base física territorial), e as infra-estruturas (o trabalho humano geografizado como as casas, as plantações, as estradas, etc.) (SANTOS, M. 1985, P 6).
Para o autor,
Quando se estuda a organização espacial, estes conceitos são necessários para explicar como o espaço social está estruturado, como os homens organizam sua sociedade no espaço e como a concepção e o uso que o homem faz do espaço sofrem mudanças. A acumulação do tempo histórico permite-nos compreender a atual organização espacial (SANTOS, M. 1985, p 53).
O caráter social do espaço urbano foi estudado por Henri Lefebvre (1986). Para o autor, o espaço "vivido" é o espaço social ao qual corresponde uma prática espacial que se expressa através da forma de uso deste espaço. Mas outras facetas também se apresentam quando se pretende conceituar o espaço urbano. Numa visão capitalista, ele também é uma mercadoria (DAMIANI et alli, 2001, P 48) e sob a ótica de Marcel Cornu (1977, P 39), o espaço também é objeto e lugar de pesquisas.

Referências Bibliográficas:
CORNU, Marcel. Libérer la ville. Paris: Castermann, 1977.
DAMIANI, Amélia Luísa; CARLOS, Ana Fani Alessandri; SEABRA, Odete Carvalho de Lima (Orgs.) O espaço no fim do século: a nova raridade. São Paulo: Contexto, 2001.
LEFEBVRE, Henri. O Direito a cidade. Paris: Anthropos, 1986, p23-24
SANTOS, Milton. Espaço & Método. São Paulo: Nobel, 1985.
SANTOS, Milton. Por uma geografia nova. São Paulo: HUCITEC – EDUSP, 1978, p 113-152.
Obs.: Os livros citados podem ser encontrados no acervo da Biblioteca Jornalista Carlos Catelo Branco\UFPI

quarta-feira, março 16, 2011

Começou!!!!

A primeira aula da Disciplina aconteceu na última segunda-feira. Um monte de carinhas simpáticas. Tomara que dê 'samba'! Ah, as dificuldades de acesso à NET são momentâneas e portanto, as postagens serão retomadas em breve.

segunda-feira, fevereiro 14, 2011

Em busca do tempo perdido, de Vicente Del Rio

A partir dos anos 90, e hoje já integrado ao paradigma do desenvolvimento sustentável, as grandes cidades passaram a buscar o renascimento dos centros urbanos, através da revitalização de suas áreas centrais através da reutilização dos patrimônios (físico, social e econômico) instalados e da sua melhor utilização possível, viabilizando o sistema econômico através das melhores respostas socioculturais. Os novos modelos urbanísticos de revitalização urbana invertem a lógica modernista e seus modelos positivistas, onde a busca pelo ideal racional-tecnicista gerava a renovação urbana indiscriminada e construía ambientes simplórios, assépticos e desprovidos da riqueza socio-cultural típica dos centros urbanos tradicionais.
Integrador e abrangente, o modelo da revitalização distancia-se tanto dos projetos traumáticos de renovação quanto das atitudes exageradamente conservacionistas, mas incorpora e excede as práticas urbanísticas anteriores na busca pelo renascimento econômico, social e cultural das áreas centrais esvaziadas, decadentes e sub-utilizadas. Pressupõe-se agora um processo, onde ações conjuntas e integradas voltam-se para dar-lhes uma nova vida.
Para tanto, através de um planejamento estratégico entre poder público (viabilizadores), poder privado (investidores) e comunidades (usuários), identifica-se planos e programas que maximizem e compatibilizem os esforços e investimentos, e norteia-se a implementação integrada de ações e projetos a curto, médio e longo prazos. Os resultados positivos, por sua vez, realimentam o processo atraindo novos investidores, novos moradores e novos consumidores, e gerando novos projetos.
Adotado em maior ou menor grau em diversas cidades no mundo inteiro, o movimento na direção deste novo modelo destacou-se a partir das experiências bem sucedidas de diversas cidades norte-americanas e européias, em particular das pioneiras Boston, Baltimore e São Francisco, nos EUA, e Londres e Glasgow, na Grã-Bretanha. No caso do Brasil, depois de uma experiência ainda em pequena escala no centro histórico de Curitiba, em meados dos anos 70, o modelo se consolidou com o sucesso do Projeto Corredor Cultural do Rio Janeiro, que hoje abrange mais de 3.500 imóveis e diversos centros culturais, e das mais recentes experiências no Pelourinho de Salvador e no centro de Recife.
O estudo das experiências bem sucedidas aponta para cinco aspectos fundamentais dos projetos: a) complexos processos de planejamento, monitoramento, gestão e marketing, b) mix estudado de diversos usos do solo, com a presença de "âncoras" sólidas; c) respeito à memória coletiva e ao contexto pré-existente (físico-espacial e socio-cultural); d) atenção ao poder das imagens e da qualidade projetual; e) implantação através de processos colaborativos entre os grupos envolvidos (governo, comunidade e empresários).
É importante frisar que, em geral, a revitalização de áreas centrais depende da promoção de novas imagens para locais tidos como decadentes ou de má fama. Portanto, por um lado, é vital a construção da confiança no processo e no lugar, o que sempre é dependente de ações integradas, contínuas e constantes, monitoradas pelo poder público. Por outro lado, essas estratégias são dependentes de agentes catalisadores da revitalização, dinâmicos e de forte apelo, constituindo-se num "diferencial" e no "gancho" inicial (não diferentemente do conceito de âncora no shopping center), contribuindo ativa e intensamente na construção da nova imagem e na atração de novos usuários e investimentos (2).
Embora, evidentemente, esses catalisadores não possam garantir o sucesso da revitalização como um todo, eles têm se mostrado essenciais para dar partida e, muitas vêzes, sustentam todo o processo. Os exemplos bem sucedidos incluem a promoção de grandes equipamentos públicos e de lazer, a valorização de conjuntos históricos e da frente marítima, com: construção de novas áreas de lazer, museus, marinas, aquários, lojas, mercados, hotéis e habitação. A presença da água, especialmente, tem servido como potente catalisador através do aproveitamento de suas conotações simbólicas e possibilidades lúdicas, tal como em Boston, São Francisco e no Inner Harbor de Baltimore. As marinas, por exemplo, públicas ou privadas, passarem a compor um diferencial importante nos novos lançamentos comerciais e residenciais nas antigas áreas portuárias.
Finalmente, deve-se notar que o turismo recreativo, cultural e de compras, tem se mostrado importante dinamizador econômico e social na revitalização das áreas centrais. No caso pioneiro de Boston, o antigo mercado e a área adjacente foram transformados, em 1977, num novo conjunto comercial com lojas, mercado, restaurantes e bares, num esforço conjunto entre a prefeitura e a iniciativa privada. No seu primeiro ano de funcionamento, esse conjunto já atraía dez milhões de visitantes (um total equivalente ao registrado para a Disneylândia no mesmo periodo) e, em meados dos anos 80, este número atingia 16 milhões/ano, três vezes mais que o total de turistas que entravam no México e no Havaí (estimou-se que os verdadeiros turistas no complexo chegavam à metade deste total) (3).
Mais recentemente, a Espanha nos proporciona dois importantes exemplos. Em Barcelona, a realização dos Jogos Olímpicos de 1992 - e os investimentos conexos - serviram como pano de fundo de programas e projetos urbanísticos para a requalificação dos espaços da cidade e a revitalização de inúmeras áreas, inclusive do centro histórico e da frente marítima, num processo que fez da cidade um dos mais importantes pólos culturais e econômicos da Europa. Em Bilbao, a estratégia para recuperação econômica da cidade – antes mundialmente conhecida apenas por abrigar o grupo separatista basco – baseou-se na decisão de construir um polêmico projeto arquitetônico para o novo museu Guggenheim, que acabou tornando-se referência mundial e razão principal das visitas turísticas à cidade, tendo recebido mais de 2,5 milhões de visitantes nos seus dois primeiros anos (4). E, nesta linha, não esqueçamos da experiência recente bem sucedida de reconstrução da imagem de Niterói – cidade vizinha ao Rio de Janeiro – através da forte imagem proporcionada pelo Museu de Arte Contemporânea de Niemeyer, um exemplar edifício-ícone que se projeta na Baía de Guanabara.
No último mês, o Rio de Janeiro também tem corrido atrás de oportunidade semelhante, brigando para receber o Museu Guggenheim brasileiro, como acompanhamos em todos os noticiários. Ter um "gehry" - ou, quem sabe, um "koolhaas", de modo a participar de uma paradigma globalizado e globalizante, em muito contribuiría na re-construção da imagem da cidade em nível internacional. Parece que, nos últimos anos, a cidade se deu conta da importância do city marketing, não sem haver perdido diversas oportunidades quando optou por contratos ou concursos locais para projetos de grande visibilidade (rio-orla na ECO-92, novo terminal do aeroporto internacional, monumento ao holocausto, etc).
Portanto, neste fim de século em que a sociedade está plenamente consciente da propriedade e do alcance social do paradigma do desenvolvimento sustentado, e dos modelos urbanísticos que lhe podem dar corpo, as metrópoles devem se convencer da importância da revitalização urbana consciente, num processo democrático, flexível, contínuo e integrado. Por outro lado, a globalização da economia tem acirrado a competição entre cidades na atração de novos mercados e investimentos, o que aponta para a importância dos diferenciais entre as cidades e, conseqüentemente, um cuidado cada vez maior na busca da qualidade destes modelos e processos. Finalmente, é mister admitir que, nessa busca pelo tempo perdido com tantos modelos e projetos equivocados ou incompletos, a implementação dos novos processos e modelos deverão ser, sempre, mais lentos do que geralmente admite a ação técnica tradicional ou tempos políticos a que estamos acostumados.
notas
1
Artigo originado na conferência de abertura do curso Intervenções em Áreas Centrais Litorâneas – O Caso de Vitória, coordenado pelo professor Tarcisio Bahia de Andrade numa iniciativa conjunta da Universidade Federal do Espírito Santo, através do Departamento de Arquitetura e Urbanismo, e da Prefeitura Municipal de Vitória, de 08 a 12/1999.

2
KOTLER, Philip et al. Marketing Público: Atraindo Investimento, Indústria e Turismo para as Cidades, Estados e Países. Rio de Janeiro, Makron / Free Press, 1995.

3
In FRIEDEN, B. & SAGALYN, L. Downtown, Inc.: How America Rebuilds Cities. Cambridge MA, MIT Press, 1990.

4
BORDOLON, E. "Maravilha Arquitetônica". In Revisa Check, ano 3, n. 31, 1999.


Sobre o autor: Vicente del Rio é arquiteto e urbanista, mestre em Desenho Urbano (Oxford) e doutor em Arquitetura e Urbanismo (USP). Atualmente é professor titular da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

Sobre este texto: extraído de http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/01.006/963, acesso em 14 de fevereiro de 2011

domingo, janeiro 30, 2011

ARQUITETURA DE RUA

Intervenções no espaço urbano têm um significado maior para o funcionamento da cidade do que possa imaginar nossa vã filosofia. Toda intervenção vai gerar nova ocupação e novos usuários. Imagine o sistema urbano recebendo esta novidade sem que o projetista tenha se preocupado com as conseqüências.
Considerando que a arquitetura deve ser vista antes de tudo como um princípio de ordenamento que define regras básicas tanto para a distribuição espacial dos movimentos urbanos de veículos e pedestres como da localização das diferentes atividades que podem ser realizadas nos espaços urbanos, é necessário incluir uma complexa análise do entorno ou do lugar onde será implantado um novo projeto.
Para tanto é necessário conhecer as características locais de ocupação, tipologia e morfologia urbanas. Explica-se tal necessidade por duas razões: primeiro para harmonizar a proposta projetual com aspectos tradicionais da área e segundo, para identificar dentre os hábitos, costumes, condições físicas e sócio-econômicas aquelas que poderão se tornar restritivas ao projeto. Também é preciso identificar e localizar equipamentos e serviços urbanos existentes com o objetivo de conhecer sua capacidade de atendimento em função da demanda existente e da demanda pós-intervenção.
Várias visitas ao local de implantação do projeto poderão fornecer subsídios para evitar erros projetuais.
Visitando os conjuntos habitacionais de Teresina, por exemplo, em alguns, observa-se sinais de deteriorização que não estão relacionados ao sistema construtivo utilizado, mas sim, à forma como as edificações foram e são ocupadas. Outros conjuntos apresentam condições mais aceitáveis. As diferenças existentes talvez sejam o caminho para uma projetação que assegure o sucesso da implantação desta tipologia.  Dentre os conjuntos que se incluem no segundo grupo, Saci, Parque Piauí, e Itararé se apresentam com uma organização espacial em consonância aos aspectos mais tradicionais de nossa cidade, tais como: arquitetura de espaços abertos, espaços livres ocupados adequadamente de forma a propiciar a reunião dos moradores, sistema viário compatível com o da cidade, certa vinculação entre edifício e rua, interação da comunidade com a cidade através de um fluxo direto, implantação da célula habitacional e dimensões de lote que possibilitam seu manuseio por parte do usuário de forma a adequá-los às suas necessidades, etc.
Visitas ao local ou à área de intervenção permitem a constatação de fatos que se tornam elementos do partido arquitetônico a ser adotado. Voltando ao exemplo dos conjuntos habitacionais de Teresina, uma ida ao local mostra uma arquitetura cheia de constituições, ou seja, de conexões entre espaço privado e espaço público. Estas conexões permitem à população um maior controle visual dos espaços públicos e se refletem em conservação e segurança da área. Sendo assim, intensificar a relação entre os espaços públicos e os espaços privados poderá ser uma excelente condição de projetação para esta tipologia.
Trata-se de uma metodologia de projetação. Sugerimos que sair da prancheta e ir à rua olhar e assimilar suas feições e suas cicatrizes é condição básica para fazer bons projetos. A este fazer, preocupado em harmonizar a proposta projetual aos aspectos tradicionais da cidade, denominamos ARQUITETURA DE RUA.
Fazer ARQUITETURA DE RUA, parodiando Kevin Linch, é experimentar o terreno (lote ou área urbana) selecionado para edificar o projeto através de seu entorno. Esta experimentação requer conhecimento técnico e envolve a historicidade da área urbana.
Depois de analisar as legislações pertinentes acerca da exeqüibilidade do objeto arquitetônico no terreno selecionado, o arquiteto deve investigar sobre a formação e constituição urbana da área. No caso da projetação de um conjunto habitacional, o questionamento deve refletir sobre a evolução histórica do trecho urbano: Como a área se constituiu? E como ela se apresenta hoje? Como esta área se integra à cidade? Há alguma barreira à continuidade da malha urbana? Atender a estas questões implica em identificar as características tipológicas e morfológicas da área, ao longo do tempo. Portanto, conhecê-las é fator de aproximação com o objeto arquitetônico e constitui variável de projeto.
O passo seguinte é identificar a composição demográfica da área e verificar como ela se distribui espacialmente. A densidade populacional será a variável obtida e principal restrição de projeto. Outras informações importantes poderão ser obtidas em instituições governamentais e dizem respeito à variável DENSIDADE DEMOGRAFICA. São dados sócio-econômicos e estruturais. Refere-se à educação (nº de escolas e creches, demanda atendida, demanda a atender, etc); economia (renda mensal/domicílio); meio-ambiente; cultura, esporte e lazer; sistema viário; saúde e segurança.
As informações obtidas levam o arquiteto ao exercício básico de seu ofício: PENSAR. As constatações que daí decorre deverão constituir subsídios para o arquiteto projetar. Mas como refletir tais informações espacialmente, sem distorções? Esta talvez seja a primeira discussão do arquiteto em seu processo de criação. Ocorre porque precisamos considerar o rebatimento das informações como necessário à integração do objeto arquitetônico ao seu entorno, à cidade. Aliás, o exercício de refletir sobre o projeto e sua relação com as pessoas e com o entorno, acompanha o arquiteto durante todo o processo de projetação. E se tal discussão for compartilhada ao invés de ser uma atividade solitária, melhor. Trará bons resultados para o projeto. Por fim, é preciso mencionar que dentre as reflexões, um tema é especial e sua ausência é catastrófica. Basta simplesmente questionar sobre os tipos de conseqüências que a implantação “daquele objeto arquitetônico” vai trazer à região. A realização desta análise pode evitar muitos problemas – para a cidade e para o arquiteto.

sábado, janeiro 29, 2011

O plano de implantação da cidade de Teresina (1852) i

Existe traçado geométrico, reticulado, simétrico. Traçado planejado para a cidade ter muitas esquinas. Quem diria? Esquinas para vigiar. Não importa porque é seguro para viver. Além do mais, se por um lado é impossível de se esconder, por outro é bom pra descortinar. Afinal, cada esquina se abre em quatro direções. São caminhos para o mundo que se queira.
Miniatura do plano da cidade, anexado a correspondência da Câmara Municipal, enviada ao Presidente da Província do Piauí, em 28/04/1855.

Teresina se fez a nova capital do Piauí através de desenho atribuído ao Mestre Isidoro. Impregnado do barroco quanto a racionalidade, formalismo, uniformidade e retilineidade do traçado, era um quadrilátero de 43 km² com 1.500 braças para o sul e 1.500 braças para o norte. Ruas de idas e vindas ao Parnaíba cruzando em ângulo reto com outras de direção norte/sul, como em um tabuleiro de xadrez.
  
Planificação de origem na política pombalina traz especificidades formais do urbanismo português (Séc. XII a XVIII), tais como a criteriosa escolha de localização do núcleo inicial, a cuidadosa adaptação ao sítio e a mesma forma de implantação da praça central de onde o traçado se origina. Sua composição apresenta duas particularidades quanto à sua centralidade. A primeira se refere à geometria. A praça dita central, não está no centro do quadrilátero urbano original. Localiza-se defronte a Igreja Matriz cuja soleira principal contém o marco-zero da cidade e cuja implantação, faz do edifício religioso o ponto focal para aqueles que chegavam à cidade pelo Rio Parnaíba. Tal característica indica um traçado feito em obediência à mesma técnica urbanística barroca de valorização da perspectiva de um edifício.

A segunda particularidade se refere à existência de uma lógica social do espaço localizado ao derredor da praça central. Trata-se do movimento social oriundo da localização dos edifícios institucionais em seu derredor. Suas implantações em destaque pretendiam alardear a autoridade portuguesa, no entanto a religiosidade se sobrepôs e a igreja matriz, além de conter o marco zero, foi também marco espacial de fronteiras sociais. Perto dela os lugares de trabalho, de administração, de saúde, de preservação. Atrás dela o lugar de comércio. Longe dela, em uma distância conveniente para o padrão espacial da época, a zona ou lugar de prostituição. Ainda é assim.

Traçado proveniente de um desenho erudito, o plano de Isidoro representa a racionalização de recursos e a simplificação de procedimentos. Função da topografia e de demandas sócio-políticas resultou na flexibilidade da trama urbana, na articulação das praças e na informalidade dos loteamentos. É marca de um planejamento prévio. Comprova que Teresina foi de fato a primeira cidade planejada e construída no Brasil - Império com o objetivo de ser capital.

Sua regularidade presume facilidade técnica e economia quanto a execução em termos de tempo e de custo, mas também esconde uma história de dominação e controle. A regularidade do traçado também era uma necessidade política de controle do espaço, herança do ofício da Engenharia Militar Portuguesa que promovia o estabelecimento e desenvolvimento da rede urbana no Brasil do século XVIII. Desta regularidade se obtém uma malha reticulada e simétrica que demonstra o feitio moderno do plano. Apresenta dimensões que permitiram a cidade acompanhar a modernização do sistema de transportes.

O plano também é moderno porque revela preocupação com um detalhamento quantitativo e qualitativo. No primeiro caso, a história mostra que Isidoro considerou fatores como densidade, superfície, dimensões, etc. Afinal, o tamanho do tecido urbano deveria absorver a população da Vila Velha e os funcionários públicos da antiga capital. No segundo caso, percebe-se que o desenho obedece a certas condições da tradição urbanística portuguesa. Ou seja, atende as condições de defesa, de boa ventilação, drenagem, controle, acessibilidade, adequação à topografia e ao clima. Além disto, fica evidente que o Plano também contempla certa pertinência funcional quanto a regras de distribuição espacial das atividades e quanto à pertinência dimensional relacionada à largura, comprimento, malha, etc.

O Plano contém elementos figurativos que definem uma tipologia de elementos urbanos (ruas, praças, lotes, quarteirões, esquinas) com articulações importantes que denotam o cuidado com o fazer urbano, próprias do planejamento prévio e que proporcionam um equilíbrio das inter-relações urbanas, das funções e das condições de uso do espaço. Mostram-se, por exemplo, no diálogo equilibrado entre cheios (áreas edificadas) e vazios (áreas livres) que resulta proporcional em volume e adequação climática.


(i) Este texto originalmente foi publicado com a seguinte referência: Braz e Silva, Angela Martins Napoleão. O Plano de implantação da cidade de Teresina (1852). Salvador, Editora da Universidade Federal da Bahia, Cadernos PPG-AU\UFBA \ Universidade Federal da Bahia, Faculdade de Arquitetura e Urbanismo – Ano 7, Número Especial, 2008, p 43-45. Francisco de Assis da Costa (Org.), 142p.: Il. Semestral, ISSN 1679-6861
       

Urbanismo moderno brasileiro

Considera-se que o urbanismo moderno brasileiro surgiu com o planejamento da cidade de Belo Horizonte, projeto de Antão Reis, no final do século XIX. Mas quais são as suas características? A resposta para esta pergunta pode ser encontrada em excelente publicação sobre a historiografia do urbanismo brasileiro. Trata-se de:
LEME, Maria Cristina da Silva. A formação do pensamento urbanístico no Brasil: 1895-1965. In: LEME, Maria Cristina da Silva (Coord.). Urbanismo no Brasil - 1895-1965. São Paulo: Studio Nobel; FAUSP; FUPAM, 2005a. p. 20-38.
Além da pesquisa coordenada por Cristina Leme,  sugerimos a leitura de trabalhos que discutem a origem das ideias que formaram a base de nossa cultura urbanística e a maneira como foram assimiladas. Citamos como exemplo :
  1. Cultura urbanística e contribuição modernista: Brasil, anos 1930 - 1960, de Marco Aurélio Gomes. Ver em: http://www.portalseer.ufba.br/index.php/ppgau/article/view/1691
  2. O desenho da cidade: formas urbanas modernas e seus reflexos no Brasil – 1920-1960, de Eloísa Petti Pinheiro. Ver em: http://www.portalseer.ufba.br/index.php/ppgau/article/view/2640